Palavras

 

Espada entre flores,

Rochedo nas águas,

Assim firmes, duras,

Entre as coisas fluídas,

Fiquem as palavras,

As vossas palavras.

 

Pois se por acaso

Dentro dos sepulcros

Acordassem as almas

E em sonhos confusos

Suspirassem rumos

De história passadas

E houvesse um tumulto

De ânsias e de lágrimas,

 

- lembrassem as lágrimas

caídas no mundo

nas noites amargas

cercadas dos muros

das vossas palavras.

Todas as palavras

 

Nos espelhos puros

Que a memória guarda,

Fique o rosto surdo,

A música brava

Do humano discurso.

De qualquer discurso.

 

Só de morte exata

Sonharão os justos,

Saudosos de nada,

Isentos de tudo,

Pascendo auras claras,

Livres e absolutos,

Nos campos de prata

Dos túmulos fundos.

 

No meio das águas,

Das pedras, das nuvens,

Verão as palavras:

Estrelas de chumbo,

Rochedos de chumbo.

A cegueira da alma.

O peso do mundo.

 

Adeus, velhas falas

E antigos assuntos!

 

Autor: Cecília Meireles (1901-1964)
Editado por: nicoladavid

 

 

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