Marcha

 

As ordens da madrugada

romperam por sobre os montes:

nosso caminho se alarga

sem campos verdes nem fontes.
 

Apenas o sol redondo

e alguma esmola de vento

quebraram as formas do sono

com a ideia do movimento.

Vamos a passo e de longe;

entre nós dois anda o mundo,

com alguns vivos pela tona,

com alguns mortos pelo fundo.
 

As aves trazem mentiras

de países sem sofrimento.

Por mais que alargue as pupilas,

mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada

senão ir andando à toa,

como um número que se arma

e em seguida se esboroa,

— e cair no mesmo poço

de inércia e de esquecimento,

onde o fim do tempo soma

pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra

pelo sabor que lhe deste:

mesmo quando é linda, amarga

como qualquer fruto agreste.
 

Mesmo assim amarga, é tudo

que tenho entre o sol e o vento:

meu vestido, minha música,

meu sonho, meu alimento.

Quando penso no teu rosto,

fecho os olhos de saudade;

tenho visto muita coisa,

menos a felicidade.
 

Soltam-se os meus dedos tristes

dos sonhos claros que invento;

nem aquilo que imagino

já me dá contentamento.

Como tudo sempre acaba,

oxalá seja bem cedo!

A esperança que falava

tem lábios brancos de medo.
 

O horizonte corta a vida,

isento de tudo, isento...

Não há lagrima nem grito:

apenas consentimento.

 

Autor: Cecília Meireles (1901-1964)
Editado por: nicoladavid

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