Em Séculos de Sombra

 

“Lamento do Oficial por seu cavalo morto”


Nós merecemos a morte,
porque somos humanos
e a guerra é feita pelas nossas mãos, 
pela nossa cabeça embrulhada em séculos de sombra,
por nosso sangue estranho e instável, pelas  ordens
que trazemos por dentro, e ficam sem explicação.

Criamos o fogo, a velocidade, a nova alquimia,
os cálculos do gesto,
embora sabendo que somos irmãos.
Temos até os átomos por cúmplices, e que pecados
de ciência, pelo mar, pelas nuvens, nos astros!
Que delírio sem Deus, nossa imaginação!

E aqui morreste! Oh, tua morte é a minha que, enganada,
recebes. Não te queixas. Não pensas. Não sabes. Indigno,
ver parar, pelo meu, teu inofensivo coração.

Animal encantado — melhor que nós todos! —
que tinhas tu com este mundo dos homens?
Aprendias a vida, plácida e pura, e entrelaçada
em carne e sonho, que os teus olhos decifravam...
Rei das planícies verdes, com rios trêmulos de relinchos...
Como vieste a morrer por um que mata seus irmãos?

 

Autora: Cecília Meireles (1901-1964)
Editado por: nicoladavid

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