Coliseu

 

Cem mil pupilas houve:
— cem mil pupilas fitas na arena.
Os olhos do Imperador, dos patrícios,
dos soldados, da plebe.

Os olhos da mulher formosa que os poetas cantaram.

E os olhos da fera acossada,
do lado oposto.
Os olhos que ainda brilham fulvos,
agora, na eternidade igual de todos.

Cem mil pupilas:
— ilustres, insensatas, ferozes, melancólicas,
                           [vagas, severas, lânguidas...
Cem mil pupilas vêem-se, na poeira da
                                               [pedra deserta.

Entre corredores e escadas,
o cavo abismo do húmido subsolo
exala os soturnos prazeres da antiguidade:

Um vozeiro arcaico vem saindo da sombra,
— ó duras vozes romanas! -
um quente sangue vem golfando,
— ó negro sangue das feras!
um grande aroma cruel se arredonda nas
                                           [curvas pedras.
— Ó surdo nome trêmulo da morte!

(Não cairão jamais estas paredes,
pregadas com este sangue e este rugido,
a garra tensa, a goela arqueada em vácuo,
as cordas do humano pasmo sobre o último
                                                 [estertor...)

Cem mil pupilas ficam aqui,
pregadas nas pedras do tempo,
manchadas de fogo e morte,
no fim do dia trágico,
depois daquela ávida e acesa coincidência
quando convergiram nesta arena de angústia,
que hoje é pó e silêncio,
esboroada solidão.

(As pregas dos vestidos deslizaram, frágeis.
E os sorrisos perderam-se, fúteis.
Sobre o enorme espetáculo, que foi o aroma
                                          [dos cosméticos?)

Autor: Cecília Meireles (1901-1964)

Editado por: nicoladavid

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