Anatomia

 

É triste ver-se o homem por dentro:

tudo arrumado, cerrado, dobrado

como objetos num armário.

 

A alma, não.

 

É triste ver-se o mapa das veias,

e esse pequeno mar que faz trabalhar seus rios

como por obscuras aldeias

indo e vindo, a carregar vida, estranhos escravos.

 

Mas a alma?

 

É triste ver-se a elétrica floresta

dos nervos: para estrelas de olhos e lágrimas,

para a inquieta brisa da voz,

para esses ninhos contorcidos do pensamento.

 

E a alma?

 

É triste ver-se que de repente se imoboliza

esse sistema de enigmas,

de inexplicado exercício,

antes de termos encontrado a alma.

 

Pela alma choramos.

Procuramos a alma.

Queríamos alma.

 

Autor: Cecília Meireles (1901-1964)
Editado por: nicoladavid

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