A Dona Contrariada


Ela estava ali sentada,

do lado que faz sol-posto,

com a cabeça curvada,

um véu de sombra no rosto.

Suas mãos indo e voltando

por sobre a tapeçaria

paravam de vez em quando:

e então, acabava o dia.

 

Seu vestido era de linho,

cor da lua nas areias.

Em seus lábios cor de vinho

dormia a voz das sereias.

Ela bordava, cantando.

E a sua canção dizia

a história que ia ficando

por sobre a tapeçaria.

 

Veio um pássaro da altura

e a sombra pousou no pano,

como no mar da ventura

a vela do desengano.

Ela parou de cantar,

desfez a sombra com a mão,

depois, seguiu a bordar

na tela a sua canção.

 

Vieram os ventos do oceano,

roubadores de navios,

e desmancharam-lhe o pano,

remexendo-lhe nos fios.

Ela pôs as mãos por cima,

tudo compôs outra vez:

a canção pousou na rima,

e o bordado assim se fez.

 

Vieram as nuvens turvá-la.

Recomeçou de cantar.

No timbre da sua fala

havia um rumor de mar.

O sol dormia no fundo:

fez-se a voz, ele acordou.

Subiu para o alto do mundo.

E ela, cantando, bordou.

A dona contrariada borda seu bordado.

Autora: Cecília Meireles (1901-1964)
Editado por: nicoladavid

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