Soneto


“Pode a palavra renomear tudo,
tudo voltar para a primeira vez?
Se em paz fui, antes de cego, surdo e mudo
agora ser-me, órfão de mim – mercês
pedindo à dor, como andar o sul do
que andei, norte aqui, abutre em chão de rês
Pode a palavra salvar? Pode o mudo
ver, cego ouvir surdo, e o mudo em mim trocados,
monstruosas dores nascendo-me aos lados,
voltarei enfim a tudo o que eu era atrás,
podendo – entanto!, ser um cego vendo,
um surdo ouvindo e um mudo, em cantos, tendo,
eterno, a eterna, inaudita, e alvar paz.”

Autor: Nauro Machado
Editado por: nicoladavid


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