Caxangá


Há um desespero real na palavra,

um desespero contra o desespero,

enlouquecido em tudo que é palavra

incapaz de dizer o real nela,

e um desespero dentro, um desespero

da palavra assentada na palavra,

de palavra assentada nela mesma,

canal e boca de uma angústia virgem,

de um dia novo contra a noite fora

envolvendo de luto os nomes todos:

Antônio, tênis, sonho, árvores, morte.

Sombra dentro de sombra, mas girando

em rodopio eterno, o pião da sombra,

o que fazer da voz, senão clamar

em uivos de absurda sombra, à noite

geradora de braços e destroços

vagando intérminos no extinto brado?

Autor: Nauro Machado
Editado por: nicoladavid


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