Errância

A voar por cima de Samarcanda,

Aceno a súbita memória

De meus avós almocreves

Que, por acaso, nunca aqui passaram

Quando iam ao Porto

Em machos guizalheiros,

E onde comiam tripas,

A buscar as especiarias de lá

De primeira classe, num avião francês,

A enjoar champanhe e caviar,

Vou a Macau falar de Camões,

Em nome dele, e por eles,

Obreiros dum império de ilusões,

Vou, como novo andarilho,

Garantir ao futuro que Portugal

Terá sempre o tamanho universaal

Da infinita inquietação de cada filho.

 

Autor: Miguel Torga (1907-1995)
Editado por: nicoladavid


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