Saudades do Rio Antigo


Vou-me embora p’ra Pasárgada.

Lá o rei não será deposto

E lá sou amigo do rei.

Aqui eu não sou feliz

A vida está cada vez

Mais cara, e a menor besteira

Nos custa os olhos da cara.

O trânsito é uma miséria:

Sair a pé pelas ruas

Desta capital cidade

É quase temeridade.

E eu não tenho cadilac

Para em vez de atropelado,

Atropelar sem piedade

Meus pedestres semelhantes.

Oh! que saudades que eu tenho

Do Rio como era dantes!

O Rio que tinha apenas

Quinhentos mil habitantes.

O Rio que conheci

Quando vim para cá menino:

Meu velho Rio gostoso,

Cujos dias revivi

Lendo deliciosamente

O livro de Coaraci.

Cidade onde, rico ou pobre

Dava gosto se viver.

Hoje ninguém está contente.

Hoje, meu Deus, todo mundo

Traz na boca a cinza amarga

Da frustração...Minha gente,

Vou-me embora pra Pasárgada.

 

Autor: Manuel Bandeira (1886-1968)
Editado por: nicoladavid



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