A António Nobre

                   Petrópolis, 3-2-1916

TU QUE PENASTE tanto e em cujo canto
Há a ingenuidade santa do menino;
Que amaste os choupos, o dobrar do sino,
E cujo pranto fez correr o pranto: 

Com que magoado olhar, magoado espanto
Revejo em teu destino o meu destino !
Essa dor de tossir bebendo o ar fino,
A esmorecer e deejando tanto ...  

Mas tu dormiste em paz como as crianças,
Sorriu a Glória às tuas esperanças
E beijou-te na boca ... O lindo som ! 

Quem me dará o beijo que cobiço ?
Foste conde aos vinte anos ... Eu, nem isso ...
Eu, não terei a Glória ... nem fui bom.


Autor: Manuel Bandeira (1786-1978)
Editado por: nicoladavid

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