Tela apagada

“Tecum vivere amem.”

  (Horácio)

 

Como isto aqui mudou!... Agosto, o ano passado,

Tinha mais sol, mais luz, mais calor, menos frio;

Mas tudo o mais é o mesmo: a água do mesmo rio,

A ponte de madeira, as mangueiras, ao lado,

 

Velhas, grandes, em flor, o lanço esburacado

Do muro, e o líquen nele, e a avenca, e o luzidio

Lacrau, que salta, e vira, e já volta ao desvio;

O cão ganindo; e a um canto, à esquerda, ao longe, o [prado;

 

Bambus em renque, em meio o caminho, e no [espaço,

Longe do morro, ao fundo, a casa; e no terraço

Sobre o jardim, talhando o ar cintilante, a imagem

 

De um anjo, - um áureo nimbo à coma, o olhar [humano

Como jamais pintou Corregio ou Ticiano:

Quem, levando-a, apagou a esplêndida paisagem...

Autor: Luís Delfino (1834-1910)
Editado por: nicoladavid

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