"Sala Morta"



Lívidas ponho as minhas mãos sobre rosas...

 

Das jarras tristes pende um esquecimento,

como um apartar de sonhos, sem tormento.

Lavrado perfume de uma sala morta:

múmia de festins! quem te cerrou a porta,

e para sempre te deixou deserta e fria!?

A um vento inesperado a alma se arrepia,

súbito, dobrando os lumes indecisos!

E há sons que acordam vultos imprecisos

de fantasmas que desfolham solidão...

 

Abre o silêncio as asas no coração...

 

Moribundo, hesita o sonho do passado.

Em meus olhos vivem rastros de pecado:

colo núbil que ergue o vulto nos espelhos

madruga como um fruto entre desejos velhos...

 

Tremem os velários últimos 'splendores;

movem-se painéis aos cantos cismadores...

O vozes na sombra, murmuras de prece,

sois já vozes de ontem, que a memória esquece...

Diálogos a medo — nenhum que se afoite,

quem vos escondeu no Invisível, na noite,

— náufragos do Sempre-eterno de tristezas?

 

Cousas que viveis um mundo de incertezas;

— solene, cantai, o vosso excelso coro!

Cerrai, cousas da noite, as pálpebras de ouro!

 

Fora — pisam musgos, alfombras, claridades,

pares de virtude em rondas de vaidades,

rezando seus lábios a saudade imensa.

Sede eterna, em nós, ó Divina Presença!

e em vós reflecti as sombras do que fomos...

 

Perfumai, glicínias, os balcões vazios!

Evocai do amor os vultos fugidios...

Perfumai de morte os vultos debruçados

sobre a hora erma dos seus sonhos apagados!..

 

Lívidas ponho as minhas mãos sobre rosas!

 

Quem recorda em vós a fruste eternidade

que a si mesmo se promete o Deus de ruínas?

Murmúrios frescos fixados nas retinas —

mãos já cerradas à vossa brevidade?

 

Sala morta! Quem vos ouve a voz sumida

dos silêncios, sonhando às portas, delida?

Exílio puro, inacessível imagem

dum cisne que mancha de horror a plumagem.

 

Cerradas as portas de ouro, acabada a hora,

sonhemos a hora calma da bela aurora!

 

 

Autor: Luís de Montalvor (1871-1947)

Ediotado por: nicoladavid


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