"O Sebastianista"

 

Que lindas barbas nevadas
Aquele velho não tem!
Foram nascidas, criadas,
Como não pensa ninguém!
Cortá-las, não corta o velho!
São-lhe as barbas um espelho
Da sua crença leal:

Dias e noites à barra,
Consulta no seu Bandarra
A sorte de Portugal!

Consulta! tem fé n'aquilo,
Pôs no livro. o coração;
Interpreta-lhe o sigilo,

Lê n'ele - Sebastião!

Conhece, soletra o dia

Em que a velha monarquia
90 sepulcro surgirá.

E profeta! até nos marca
As horas a que o monarca
D'além mundo voltará!

D' além mundo da batalha
Por milagre s'escapou,
Renegando da mortalha,
Da c'roa não renegou!
Há -de vir. Nas profecias
Dos modernos Isaías,

Há uma que diz assim:
«Se. conservarem afinco,

No ano d'um três e um cinco,
Espere o povo por mim.»

«Quem se atreve a ler as sinas
D' este meu condão real,
Soletre nas cinco quinas

Os fados de Portugal.
Traduzidas, combinadas,

Trazem as eras marcadas,
As eras da redenção;

Não nas leiam os profanos,
Qu'inda tem de passar anos
Antes d'esta tradução!

 
«Portugal nunca vencido,
Antes sempre vencedor,
Pelo meu braço remido
Cobrará novo vigor.

Mais verá, quem tiver vista,
Seguirem do rei a pista
Estranhos novos pendões:

Das terras d'além do Ganges,
A vançarem as falanges

Dos' portugueses leôes!»

Ai quem me dera no peito
ter a  fé que muitos tem!
As profecias afeito

Não nas cedera a ninguém!

Fora-me o peito sacrário.
Onde como em relicário
Guardara. fé ao meu rei:

Em profeta me elevara,
Como os mais interpretara
Altos segredos da lei!

Fora-me à ilha-encoberta,

- Que muita gente já viu -
Deixara lá por oferta

O que o peito mais sentiu.
Aos que julgam o rei morto,
Dera-lhe novo conforto,
Dizendo como o lá vi;

D' olhos pregados na barra,
Buscara no meu Bandarra,
A crença que já perdi.

«Montado no seu cavalo
N'um dia de cerração,

Quem quiser pode ir esperá-lo,
EI- Rei Dom . Sebastião.

N' esta terra que é tão minha,
Haverá então rainha

Governando Portugal.        

Mas quer Deus que haja em Lisboa
Quem do reino se condoa,
Dando-lhe a voz de real!»

 

Se alguém duvida do dia
Aqui lhe ponho os sinais;

Corno reza a profecia,
Como ela reza não mais.
«Como sagrada 'vedeta,
Verás no céu um cometa
De grandeza colossal;

Verás também com espanto,
O corpo d'um grande santo
Em terras de Portugal!»

 

«Andarão todos em guerra
Por essas terras d'além;
Nem nas cabanas da serra
Viverá em paz ninguém.
Por três noites, e três dias,
Haverão mil agonias

Que eu aqui lhes não direi:

Andará tudo de luto,

Sem os campos darem fruto,
Sem ninguém seguir a lei!»

 

As arv'res, pendendo curvas,
Secarão pela raiz:

As fontes correrão turvas
Como o profeta nos diz.
Os peixes, fugindo à sorte,
Acharão a mesma morte

Nas turvas ondas do mar;

Nem o Sol será brilhante,

N em nos cerros mais distante,
Brilhará luz do luar!

 

Mas passados sete dias,

E sete noites também,

Lá dizem as profecias

Não deve temer ninguém,
Não deve. Que do nascente

Segundo crê muita gente,
Virá vindo a cerração:

E depois dela desfeita
Surgirá a velha seita
D'el-rei Dom Sebastião!

 

E depois por muitos anos,
Viverá o bom do rei;
Ensinando a nós profanos

A crermos na sua lei.

Tudo então será festejo;
Parece que já o vejo

Moço ainda a governar;

Sem d' Alcácer ter saudade,
Nem mesmo sequer
vontade
De novo por lá voltar.

 

Até lá tem multa gente

De espreitar a ocasião,

Em que volte diligente

El-rei Dom Sebastião.

Os sinais já tem chegado,
Em que o moço Desejado
Cumpra a palavra real;

Em que se apresse de novo
A festejar o seu povo

Em terras de Portugal!

 

 

Autor: Luis Augusto Palmeirim (1825-1893)

Editado por: nicoladavid

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