"Adeus, Pátria"

Ao longe, pálida e nua

Sobre o viso do alto serro
Como um círio num enterro
Saudosa desponta a Lua.

 

Que triste agoiro! O canteiro
Que eu todo semeei de flores
E que foi dos meus amores
Berço e túmulo primeiro;

 

Esses montes que se alteavam
Tapetados de açucenas,

Para que minguassem penas
Onde amores sobejavam;

 

E a frescura da ribeira

Onde à tarde, ao pôr do Sol,
Pipilava um rouxinol
Escondido na balseira;

 

E o toque da ave-maria,
Suspiro de mãe aflita,

Tão doce, que nem o imita
Uma rola ao fim do dia;

 

E os domingos, de folgança,

Em que ao pé da ermida se arma
Em festiva e doida alarma

Uma fogueira e uma dança;

 

E aquelas tardes no rio,
Tardes e tardes inteiras,
Escutando as lavadeiras
A cantar ao desafio;

 

E aquela verde espessura
Onde as pequenas da aldeia
Vão buscar a bilha cheia

De água a mais fresca e mais pura;

 

Autor: José Simões Dias (1844-1899)
Editado por: nicoladavid

Não esqueça ligar o som.

Comments