Tu, Penumbra De Pés Doces


xii

Tu, Penumbra de pés doces,

que deixas pegadas nas brisas e no cheiro das ervas...

Tu, Penumbra,

que, de telhado em telhado,

arrastas o último Sol

pelos cabelos dos voos mortos...

Tu, Penumbra.

Não entres na minh’alma com dedos de algodão em rama, para apagar o lume das feridas...

Entra, cruel e lúcida

coroada de morcegos,

num desalinho desamparado de mulher

com a lua de ferro-em-brasa nas tranças

    e mãos de tenazes

a arrancarem as crostas das chagas esquecidas.

Entra, frenética e dura,

ungida de baba de lobos,

e esgarça com unhas de abrir covas

todas as cicatrizes dos látegos dos meus espectros.

Todas as humilhações dos túmulos adormecidos.

Todos os perfis do ciúme na cera dos assomos.

Tudo o que dói. Tudo o que magoa. Tudo o que macera.

Tudo o que estrangula com alicates de espinhos.

Tudo o que alimenta de vasa as fauces do meu monstro

sôfrego das horas estagnadas,

dos risos de pus,

dos trapos das abominações,

das bofetadas que sangram nas faces até ao fim do mundo,

dos olhos vazados pelos punhais amarelos

e de tudo, tudo, tudo, tudo

que no remorso de me esquecer de abismos

se transforma de súbito em piedade pelos outros

   pobres sombras de pé doutras sombras de rasto que no fumo da dor mais alta

nem ao menos ouvem como eu este violoncelo de lágrimas de ódio a soluçar no Crepúsculo.

Tu, Penumbra,

que desces dos telhados para os caminhos na tarde funda

com passos de pios de mocho a penetrarem nas pedras humidamente...

 

 

Autor: José Gomes Ferreira (1900-1985)
Editado por: nicoladavid

Comments