"O General"

"Depois de fortemente bombardeada, a cidade X foi ocupada pelas nossas tropas.")

 

O general entrou na cidade

ao som de cornetas e tambores ...

 

Mas por que não há "vivas"

nem flores?

 

Onde está a multidão

para o aplaudir, em filas na rua?

 

E este silêncio

Caiu de alguma cidade da Lua?

 

Só mortos por toda a parte.

 

Mortos nas árvores e nas telhas,

nas pedras e nas grades,

nos muros e nos canos ...

Mortos a enfeitarem as varandas

de colchas sangrentas

com franjas de mãos ...

 

Mortos nas goteiras.

Mortos nas nuvens.

Mortos no Sol.

 

E prédios cobertos de mortos.

E o céu forrado de pele de mortos.

E o universo todo a desabar cadáveres.

 

Mortos, mortos, mortos, mortos ...

 

Eh! levantai-vos das sarjetas

e vinde aplaudir o general

que entrou agora mesmo na cidade,

ao som de tambores e de cornetas!

 

Levantai-vos!

 

É preciso continuar a fingir vida,

E, para multidão, para dar palmas,

até os mortos servem,

sem o peso das almas.

 

Autor: José Gomes Ferreira (1900-1985)
Editado por: nicoladavid


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