"A Minha Solidão"

(Durante dias andei a ruminar estes versos)
 

A minha solidão

não é uma invenção

para enfeitar noites estreladas...

 

...Mas este querer arrancar a própria sombra do chão

e ir com ela pelas ruas de mãos dadas.

 

...Mas este sufocar entre coisas mortas

e pedras de frio

onde nem sequer há portas

para o Calafrio.

 

...Mas este rir-me de repente

no poço das noites amarelas...

- única chama consciente

com boca nas estrelas.

 

...Mas este eterno Só-Um

(mesmo quando me queima a pele o teu suor)

- sem carne em comum

com o mundo em redor.

 

...Mas este haver entre mim e a vida

sempre uma sombra que me impede

de gozar na boca ressequida

o sabor da própria sede.

 

...Mas este sonho indeciso

de querer salvar o mundo

- e descobrir afinal que não piso

o mesmo chão do pobre e do vagabundo.

 

...Mas este saber que tudo me repele

no vento vestido de areia...

E até, quando a toco, a própria pele

me parece alheia.

 

Não. A minha solidão

não é uma invenção

para enfeitar o céu estrelado...

 

...mas este deitar-me de súbito a chorar no chão

e agarrar a terra para sentir um Corpo Vivo a meu lado.

 

Autor: José Gomes Ferreira (1900-1985)
Editado por: nicoladavid



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