"Cores"



Vermelho da papoila - o raio que ensanguenta
A máscara dum céu nevrótico, de fúria,

Os risos de Satã, os uivos da Tormenta

E os beijos da mulher nascidos da luxúria ...

Roxo - o vinho que bebo, quando me apetece
Cair na sugestão provável d'outras vidas ...

O sangue de Jesus manando-Ihe das feridas,

E a miserável dor que tanto me entristece ...

Azul - o céu aberto onde voejam todas

As almas virginais ... azul - o seu Desejo ...
E há-de ser azul o véu das suas bodas,

Como é também azul o sonho em que te vejo ...

O verde - a Podridão, as sedas da floresta,
A carne putrefacta, as larvas inconscientes,

A trémula agonia exausta dos Poentes,

O brilho da esmeralda e a esperança que nos resta ...

Violeta - e é tanta a graça e a candura é tanta,
Que ainda que não houvesse a cor da violeta,
Iria adivinhá-la, ó casta Julieta,

Na luz espiritual do teu olhar de Santa!

O amarelo - a Raiva, a Decepção, o Tédio,
O riso-do meu lábio, a cor do morto inerme,
O goivo entristecido, a Angústia sem remédio,
A macilenta Fome e o gargalhar do' Verme ...

Cinzento - e gosto desta cor porque me enerva
As cinzas fazem tudo igual a tudo mais ...

E é sob a cinza que adormece e se conserva
A raiva deste amor que vós abendiçoais ...

Negro - o luto, a viuvez, a cor da treva bruta,

A noite do remorso, o ventre duma vala…

E é na escuridão que se ouve mais a fala…

Quanto menos se vê muito melhor se escuta.

E sem saber por que desconhecidas normas,
N a vaga sinfonia histérica das cores,

Descubro no que é branco a languidez das formas ...
E vejo no que é rosa a morte dos amores!. ..

 

 

Autor: José Duro  (1875-1899)
Editado por: nicoladavid

 

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