"Elogio da Palavra"

 
A palavra, esse dom celeste que Deus deu ao homem e recusou ao animal, é a mais sublime expressão da natureza: ela revela o poder do Criador e reflecte toda a grandeza de sua obra divina.

Incorpórea como o espírito que a anima, rápida como a electricidade, brilhante como a luz, colorida como o prisma solar, comunica-se ao nosso pensamento, apodera-se dele instantaneamente e o esclarece com os raios da inteligência que leva no seu seio.

Mensageiro indivisível da ideia, íris celeste do nosso espírito, ela agita as suas asas douradas, murmura ao nosso ouvido docemente, brinca ligeira e travessa na imaginação, embala-nos em sonhos fagueiros, ou nas suaves recordações do passado.

Reveste todas as formas, reproduz todas as criações e nuances do pensamento, percorre todas as notas dessa gama sublime do coração humano, desde o sorriso até á lágrima, desde o suspiro até o soluço, desde o gemido até o grito rouco e agonizante.

Às vezes é o buril do estatuário, que recorda as formas graciosas de uma criação poética, ou de uma cópia fiel da natureza; aos retoques deste cinzel delicado a ideia se anima, toma um corpo e modela-se como o bronze ou como a cera.

Outras vezes é o pincel inspirado do pintor que faz surgir de repente ao nosso espírito, como de uma tela branca e intacta, um quadro magnífico, desenhado com essa correcção de linhas e esse brilho de colorido que caracterizam os mestres.

Muitas vezes é a nota do hino, que ressoa docemente, que vibra no ar, e vai perder-se, além do espaço, ou vem afagar-nos brandamente o ouvido, como o eco de uma música em distância.

A ciência tem nela um escalpelo, com que faz a autópsia do erro, descarna-o dos sofismas que o ocultam e a mostra claramente àqueles que, iludidos por falsas aparências, julgam ver nele a verdade.

O sentimento faz dela a chave dourada que abre o coração às suas emoções de prazer, como o raio do sol, que desata o botão de uma rosa cheia de viço e fragrância.

A justiça deu-a à inocência coma a sua arma de defesa, arma poderosa e irresistível, que tantas, leis ao mundo do alto desse trono, que tem por degrau o coração e por cúpula a inteligência.

Assim, pois, todo homem, orador, escritor, ou poeta, todo homem que usa da palavra não como um meio de comunicação às suas ideias, mas como um instrumento de trabalho; todo aquele que fala ou escreve, não por uma necessidade da vida, mas sim para cumprir uma alta missão social; todo aquele que faz da linguagem, não um prazer, mas uma bela e nobre profissão, deve estudar e conhecer afundo, a força e os recursos desse elemento de sua actividade.

A palavra tem uma arte e uma ciência; como ciência, ela exprime o
pensamento com toda a sua fidelidade e singeleza; como arte, reveste a ideia de todos os relevos, de todas as graças, e de todas as formas necessárias para fascinar
o espírito.

O mestre, o magistrado, o padre, o historiador, no exercício do seu respeitável sacerdócio da inteligência, da justiça, da religião e da humanidade, devem fazer da palavra uma ciência; mas o poeta e o orador devem ser artistas, e estudar no vocabulário humano todos os seus segredos mais íntimos, como o músico que estuda as mais ligeiras vibrações das cordas de seu instrumento, como o pintor que estuda todos
os efeitos da luz nos "claros-escuros".

 

 

Autor: José de Alencar (1829-1877)

Editado por: nicoladavid


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