Amo-te muito


Amo-te muito, meu amor, e tanto

que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda

depois de ter-te, meu amor. Não finda

com o próprio amor o amor do teu encanto.
Que encanto é o teu? Se continua enquanto

sofro a traição dos que, viscosos, prendem,

por uma paz da guerra a que se vendem,

a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,

nesta invenção da humanidade inteira

que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa…

Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,

sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

 

Autor: Jorge Luis Borges (1899 -1986)
Editado por: nicoladavid


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