A Um Gato


Não são mais silenciosos os espelhos

Nem mais furtiva a aurora aventureira;

Tu és, sob a lua, essa pantera

que divisam ao longe nossos olhos.

Por obra indecifrável de um decreto

Divino, buscamos-te inutilmente;

Mais remoto que o Ganges e o poente,

É tua a solidão, teu o segredo.

O teu dorso condescende à morosa

Carícia da minha mão. Sem um ruído

Da eternidade que ora é olvido.

Aceitaste o amor desta mão receosa.

Em outro tempo estás. Tu és o dono

de um espaço cerrado como um sonho.

Autor: Jorge Luis Borges (1899 -1986)
Editado por: nicoladavid


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