Contra As Mulheres

 

Esforça, meu coração,
não te mates, se quiseres:
lembra-te que são mulheres.

Lembre-te que é por nascer
nenhuma que não errasse;
lembre-te que seu prazer,
por bondade e merecer,
não vi quem dele gostasse.
Pois não te dês à paixão;
toma prazer, se puderes:
lembre-te que são mulheres.

Descansa, triste, descansa,
que seus males são vinganças.
Tuas lágrimas amansa,
deixa-as às suas esperanças;
que pois nascem sem razão
nunca por ela lhe esperes:
lembre-te que são mulheres.

Tuas mui grandes firmezas,
tuas grandes perdições,
suas desleais acções,
causaram tuas tristezas.
Pois não te mates em vão,
que quanto mais as quiseres
verás que são as mulheres.

Que te presta padecer?
que te aproveita chorar?
pois nunca outras hão-de ser,
nem são nunca de mudar.
Deixa-as com sua paixão;
seu bem nunca lho esperes:
lembre-te que são mulheres.

Não te mates cruamente
por quem fez tão grande errada;
que quem de si se não sente
por ti não te dará nada.
Vive lançando pregão,
por onde fores e vieres,
que são mulheres, mulheres.

Cabo.

Espanha foi já perdida
por Letabla uma vez,
e a Tróia destruída
por males que Helena fez.
Desabafa, coração,
vive, não te desesperes;
que o que fez pecar Adão
foi a mãe destas mulheres.

Autor: Jorge de Aguiar (Séc. XV-XVI)
Editado por: nicoladavid

Comments