Tentação

 

Faze de conta que eu
Venho de muito longe
E tenho um ar de monge
E fixo muito o Céu...

E, abrindo um livro, imenso
Como os que vês no altar,
Fico-me a ler, suspenso
E extasiado no ar!

Há nesse livro os cantos
Da timidez que vão
Como a oração dos Santos,
Subindo na amplidão.

Depois... o canto inflama
O lábio, e já parece
Que o texto é uma chama
Que numa língua cresce,

Bem como no horizonte
A aurora, quando nasce.
Para escaldar-me a fronte
E incendiar-me a face!

É quando na leitura
Vem um Demónio, a rir,
Tentar uma alma pura
Que tenta em vão fugir...

Que luta encarniçada
Se vai travar! E, enfim,
Essa alma já cansada
Vai-lhe dizer que sim,

Quando um Arcanjo armado
Desce do ar... Depois,
Ouve-se um grande brado
E o batalhar dos dois!

Nesta passagem louca,
Já tu, — pomba assustada!
Ergues a mão gelada,
Para tapar-me a boca...

Mas sobe o Arcanjo, então,
Ao Céu, — morto o Desejo —
E ouve-se, após um beijo,
Cair um livro ao chão !


Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

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