Ronda dos mortos

 

Quando, noite de inverno, na floresta
Ruge a galope-um temporal sagrado,
Das trevas surge, de repente, em festa,
Um soberbo palácio iluminado!

A chuva açouta sem piedade os flancos
Da floresta dos cedros rumorosos...
Mas nos vastos salões silenciosos
Baila uma ronda de fantasmas brancos!...

Vejo-os correr, ao longo das vidraças
Do sinistro palácio, á luz de círios…
E são brancas mulheres como lirios
Que óra vejo passar, erguendo tapas!

Diva a treva n'um doido torvelinho
De ramos sob a chuva; e vae passando
Essa ronda de mortos, arrastando
Na dança muda os seus lençóes de linho.

Sois vós aquelas que estreitei ao peito
E me vindes agora visitar
Quando aos soluços trágicos do mar
Me ergo, assustado e pálido, no leito!

Voltae ás vossas campas regeladas
D'onde vos trouxe o temporal furioso!
E deixae-me viver no imenso gôzo
Da adoração d'outras feições amadas!...

Mas tu — única estrela do meu norte!
Antes que o Tédio venha e me responda,
Tu, que juras ser minha até á Morte,
Meu pobre amor, — quando entrarás na ronda

Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

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