Quarta-Feira de Cinzas

Abre-se a Igreja aos fieis… 0 som dos guisos morre…
Tem a palavra o sino e vae falar da torre!
Bronze soturno, dobra! 0 Carnaval morreu;
Á máscara sucede outra máscara: — o véu;
Á bisnaga, a água benta; a cinza aos pós de goma…
Veneza emudeceu — quem fala agora é Roma!


Homens!  o vosso pranto é como o vosso riso :
Faz-vos chorar um sino e faz-vos rir um guiso!
Hontem — folia, baile; hoje — orações, igreja!
Divertis-vos, rezaes... Mas como quer que seja,
Quer vos encontre rindo ou pondo ao alto as mãos,
Extranho — francamente! — esses modos cristãos
De despachar, á luz do sol ou do sacrário,
Hontem, tremoços; hoje, as contas do rosário!...


Divertis-vos, viveis n'um Carnaval constante…
Caminhaes a cantar no séquito brilhante
Desse loiro Prazer, com asas, celestial,
Que num carro de fogo e rodas de cristal,
Esfólha á luz do sol, sôbre a côrte luzida,
Febril, a plenas mãos, um ramo doce: — a Vida!


Homens, cantae, folgae!... Silencio! 0 sino dobra...
Abre-se a Igreja... Entrae de rastos, como a cobra...


Ardem lumes no altar! E á luz das tochas, pálida
A imagem de Jesus, magra, sombria, esquálida,
Escorre em sangue…

       E olhaes, hipócritas, ao Céu
Porque a escorrer em lama o Carnaval morreu!


Autor: João Saraiva (1866-1948)

Editado por: nicoladavid


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