Pura

 

Atira-me ao pescoço os teus braços de neve!
Solta ao vento da tarde o teu cabelo... E em breve
Hás de ver-me tremer, branco de comoção!
É que eu nunca beijei a tua ebúrnea mão!

É que a boca vermelha e doce que me fala
Nunca em beijo fechou, quando se fecha e cala!
É que os filtros do amor giram a arder-me nas veias
São as garras da Febre a partir as cadeias
 
Com que o Mundo nos tolhe os ímpetos ardentes...
— Atira-me ao pescoço os teus braços clementes! 
Ouve: se a Carne ruge, a Alma em silêncio chora.
A candidez do lírio ama o rubor da aurora;

Mas, quando o sol lhe queima as pétalas divinas,
A alma do lírio deixa as formas peregrinas
Da flor... o lírio murcha, o lírio morre em breve
— Quero-te pura: cruza os teus braços de neve!


Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

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