Outubro

 

O outono chega. 0 céu torna-se agora frio.
O Sol não tem calor e o bosque é mais sombrio...
Uma funda tristeza absorve a luz da tarde...
E embora o poente, ao longe, as suas tintas guarde
E no pálido azul se escoem lentamente
Nuvens de fogo e neve e rama d'oiro ardente,
A alma, que vê chegar o Outono, desfalece!...

Crenças, folhas — adeus! já tudo amarelece!...
Partes... Prouvera a Deus que nunca me olvidasses.
Ele que fez de neve e rosa as tuas faces
E pôz no teu olhar o brilho
imaculado
Duma estrela tirada ao Céu todo estrelado,
Doando ao teu cabelo uma essência nocturna
De lua a dissolver as sombras duma furna,
Fez do teu peito lácteo um relicário... E, enfim,
Para esse peito — flôr! — deu-me este amor a mim..


Às noites outonais têm lânguidos segredos...
Não vás!...A escuridão dos altos arvoredos,
Quando vermelha e grande a Lua se levanta,
Prateia-se, abrigando um rouxinol que canta!
Fica e deixa-me vêr com estes olhos baços
A Lua entre os choupais, e Tu entre os meus braços!


Depois, quando a Manhã no horisonte nevoento
Com seu manto de rosa a flutuar ao vento
Despontar, apagando as estrelas do Céu,
Tu, despregando o olhar da luz febril do meu,
Purpúrea, soltar-te-ás dos meus braços letais
Como a Lua triunfal da rama dos choupais !...


Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

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