Outono

 

É fim do Outono. A aragem fria
Desfolha as árvores...  Parece
Que tudo faz melancolia!
O Sol que as nuvens coloria,
Pálido agora, disparece!

 

No solo cheio de folhagens
Ouço gemer as folhas mortas...
Sente-se o Inverno nas paisagens.
Outono, deixa estas paragens!
Tristeza, bate às nossas portas!

 

Os campos calam-se, dormentes.
E já não risca o poente loiro
O vôo das aves inocentes...
E o bosque, ás brisas inclementes,
Tapeta o chão de folhas d'oiro!

 

E era acolá, passando a ponte,
A descansar do meu caminho,
Que eu me sentava, ao pé da fonte,
Lá onde esvoaçam no horisonte
As velas rôtas dum moinho!...

Hoje, entristeço. O olhar sombrio
Vae com as nuvens pelos céus...
Se baixo o olhar, que desvario!
O bosque nú treme de frio,
O moinho triste diz-me adeus!...

 

É noite. Agora o azul cavado
Scintila aos poucos sobre a Terra.
Soluça o bosque desfolhado;
E, além, de rosto ensanguentado
A Lua sae por traz da serra...

 

Meu Deus! pior que a névoa densa,
Que o vento e a chuva é o abandono!...
Abre-se a porta á noite imensa:
O Inverno chora, o Outono pensa...
Porisso és triste—ó pobre Outono!


Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

Comments