O Lobo Humano

 

A cada instante aos meus ouvidos
Chega um lamento, um grito, um ai!
Côro dantesco de gemidos,
Detonações, brados perdidos
E o baque surdo de quem cae...

Soluços, bocas às dentadas
N'uma feroz agitação...
Blasfémias, uivos, gargalhadas,
Imprecações e derrocadas
No ronco torvo dum tufão

É o velho mundo a desfazer-se
E a rapa humana que o desfaz!
O Egoísmo em fúria a contorcer-se,
Todo a espumar e a remorder-se,
Guinando aos pulos para traz!

Trava-se a luta, braço a braço,
E não ha trégoa nem perdão!
O sangue espirra a cada passo,
Os córvos cruzam todo o espaço
E o fogo lambe a escuridão...

N'uma alcateia, foragidos,
Os lobos olham com pavor:
— É o Lobo humano!... — E, comovidos,
Vão para as furnas escondidos
Lamber os filhos com amôr...

Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

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