O Lindo Palácio

 

Fui sósinho, perdido em meio do deserto...
Mal podia pensar que vinhas tu já perto,
Trazendo da cisterna a infusa a trasbordar!
Vinhas tu longe ainda e eu ouvia cantar;
Mas o teu canto era tão alto e era tão doce
Que, levantado o olhar, imaginei que fosse
Alguma ave, talvez perdida, demandando
A palmeira natal ao vento bamboleando
As largas folhas como um leque de sultana!...

Vi-te chegar depois, linda Samaritana,
Sorrindo para mim como um perdão suave,
E eu, que supús teu canto o gorgear duma ave,
Levei trémulo à bôca a infusa que trazias
E, depois de beber, como índa me sorrias,
Disse-te: «Sê bemdita! A sêde que apagaste
Era um botão de fogo a estremecer numa haste!
Com tua bilha e teu sorriso, esse botão
Caiu do lábio e abriu-se, a rir, no coração!»

Olhaste para mim como quem diz: — «Pois seja»
E a tua bôca, linda e fresca de cereja,
Continuava a sorrir num extase divino...
Larguei o meu bordão de triste peregrino
E pús-me a caminhar amparado ao teu braço...
Uma música alegre enchia todo o espaço!

Súbito, ao longe, viu-se a cúpula doirada
Dum palácio, a subir na tarde esbraseada
Do horizonte... Era ali! E a sombra que descia
Atrás de nós, parece até que nos trazia
Perfumes dos jardins longínquos do Levante...
Fulgia sobre a Terra uma Lua brilhante!
E ao chegarmos ao pé da esplendida cidade
Lêste um distico: «Sonho !» E eu li: «Felicidade…»

Em letras d'oiro, no palácio que avistamos,
Agora que um e outro, juntos, o habitamos,
Um distico somente esplende ao nosso olhar...
Escrevemo-lo nós e diz só isto: «Lar!»


Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

 
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