Nocturno

 

Alta noite glacial d'estrelas e luar.
Recolho a casa, absorto… E, quando vou a entrar,
Abeira-se de mim uma cena angustiosa…

Da sombra, que a trapeira esguia e silenciosa
Despenha na calçada e alastra pela rua,
Destaca-se a marchar e vejo agora, à Lua,
Um grupo que me faz parar de comoção:

Duas crianças vem trazendo pela mão
Um pobre cego, lentamente… Ao longe, o frio
Põe tremuras de luz, na vastidão do rio!...

Que triste é ir dormir sem agasalho! E a Fome ?...
Como esta ideia atroz me assalta e me consome,
Despejo-lhes nas mãos a minha bolsa, e digo:

«Coitados! é preciso ir procurar abrigo…»

Beijou a esmola o cego... E, enquanto alegre via
Iluminar-lhe a face um raio de alegria,
Orgulhoso de mim, contente de ter sido
Útil e bom, pensava agora, enternecido,
Que num sonho feliz, cheio de bons agoiros,
Vira a Noite a marchar entre dois astros loiros!

 

Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

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