Melancólica



Mal tu sabes, Maria, como custa
Vêr a tua alma límpida cercada
Duma tristeza amarga, que me assustai

Lá da celeste, olímpica morada,
Onde me dizem que a Ventura existe,
Deus nos contempla, minha bem-amada,

Desde o ditoso dia em que surgiste,
Para consolo dos meus tristes dias.
Mas eu não quero que tu vivas triste!

Porque, sofrendo tu, nada alivias.
E sendo alegre a tua vida, então
Hão de alegrar-me as tuas alegrias.

Quando se tolda a cérula amplidão,
A mais verde paisagem nos parece
Triste, tocada por funérea mão!

A flôr mais viva e cálida esmorece…
Vê que seria deste nosso amor,
Se o teu olhar — um céo — escurecesse!
Esmorecia como a pobre flôr!...

 

Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid
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