Último sono

 

Morreu. No seu caixão que mais parece um trôno
De rosas e setins — branco ataúde esguio —
Entra, morta, a sorrir nesse país sombrio
Onde nenhuma luz irá quebrar-lhe o sono.

Morta! Ficaste assim num mágico abandono
Quando a geada crésta as florações do Estio...
Como no teu caixão deves tremer de frio,
Tu, que tossias tanto ao declinar do Outono!...


Choro. Sagro-lhe as mãos num beijo leve, e creio
Que inda o sente... Meu Deus! vae palpitar-lhe o seio,
Abrir os olhos, vêr-se entre as tochas acezas!...

Mas a Morte cerrou-lhe os grandes olhos bem!
E o sorriso d'amor que inda nos lábios tem
Quer soltar-se... voar... e sente as azas prezas!

Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

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