Liceu feminino

 

Gomo o Progresso adquire uma força titânica
Entendeis que uma flôr deve saber botânica;
Astronomia, a estrela; e o cândido jasmim,
Noções de grego e ter aromas de latim!
Ilustrae! Ilustrae, porque a ignorancia é um crime
E a ilustração da flôr uma coisa sublime!...
Uma rosa inocente e ignorante — que horror!
É preciso educa-la e ensina-la a ser flor:

 

Leia Linneo! A estrela, inda peior... Que leia
Flammarion... Depois, pôde brilhar!

A ideia

É genial — aprovo! E metam no
Liceo As rosas dos jardins e as estrelas do Céu!...

Mulher — esposa, mãe, mulher amada, irmã
— É sempre a claridade ingénua da manhã!
Onde quer que ela vá, deixa um aroma e um rastro...
Perfuma a vida, — é flôr; enche-a de luz, é um astro!


Pois desta flôr ingénua e deste astro divino
Que a nossa dôr encontra através do Destino,
Desta branca visão de Sonho, que nos leva
Numa barca de luz sulcando um mar de treva,
Onde os Ódios, a Inveja, a Cólera brutal,
Toda a verde legião torsionada do Mal
Surge das ondas, ruindo em turbilhões de sombra,
A espumar, a latir contra essa luz que assombra;

Dessa piedosa e doce e clemente visão
Que nos ama e nos guia e só nos larga a mão
Quando a noss'alma vôa ás luminosas praias,

Vem o Progresso e faz um bacharel de saias!

 

Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

 
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