Leão XIII

 

Leão XIII morreu. Á luz frouxa da tarde
Vagueiam sombras pela camara papal…
E ao trémulo clarão, que nos tocheiros arde,
Alastra-lhe na face um palor sepulcral.

Todo branco, a sorrir, as magras mãos no peito,
Dir-se-ia que ficou n'um extase a sonhar...
E ténue como um lirio, estendido no leito,
O velhinho parece agora descansar!

Obreiro do Senhôr! acabaste os teus dias...
Eis-te liberto, emfim, das fadigas terreaes!
Mas o Mundo soluça as mesmas agonias,
A mesma dôr, o mesmo anceio, os mesmos ais!

Quando repousará a alma da Humanidade
Eternamente em luta, a esperar e a descrêr ?...
Ah! como sofre ainda a pobre Cristandade,
Depois que tu, ó Cristo, a deixaste a sofrer!

Debalde invoca Deus a multidão sombria
Dos que torcem as mãos nas angústias da Dôr!
— Miseráveis que vão no declinar do dia
Sem nunca terem visto a face do Senhor! —

Encheste de esplendor o teu longo papado...
Foste obreiro de Deus, mas trabalhaste em vão!
Porque não deste ao mundo, aflito e desgraçado,
Nem mais justiça, nem mais calma, nem mais pão!

Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

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