Flores de Inverno



Maria, quando fores
Outra vez à ribeira ver os gelos,
Não leves tantas flores
No reluzente nó dos teus cabelos!
Os arbustos olhavam-te pasmados,
Hirtos de dor!
Tanta flor tinhas tu, e eles — coitados!
Sem uma flor!...

Ias passando e ouvi
Como um murmúrio de quem fala a custo:
«Gomo é pesada aqui,
No inverno, a vida de quem nasce arbusto!
A neve cai, e cai a chuva atroz,
E o vento lufa!
Vós, sim, sois mais felizes do que nós,
Plantas d'estufa!»

E olha, tinha razão
A voz sumida dos arbustos, filha!
Que sempre um coração
Chora de pena, quando um outro o humilha...
A Alegria também é como as flores,
Límpida flor!
E é tão triste, vendo outras ter amores,
Não ter amor!

Como arbustos, no inverno,
Nossas almas, Maria, vejo agora:
Um sol doirado e terno
Alegra a tua, enquanto a minha chora…
Só a neve dos céus, neve inclemente,
Cai sobre mim...
Maria, ah! custa muito realmente
Viver assim!...

Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

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