Contrastes

 

Há corações felizes
Que rápido se esquecem!
Esses não envelhecem...
São os ingratos — dizes.

Ingratos, não: felizes,
Que sempre reverdecem!.

Há corações que a amar
Vão como de caminho
Por uma estrada a andar!...
Eu vou devagarinho...

Por isso hei de eu amar
E hei de me ver sozinho!

Esses bem raro alcançam
O termo da carreira!
Caem por fim na poeira...
Ah, morrem, mas não cansam!

Coitados, não alcançam
A sua companheira!...

Um coração assim
Decerto não conheces...
Põe teu olhar em mim
E dize se o mereces!

E és mais feliz assim...
Feliz, porque te esqueces!

Um coração que sente
Tamanho amor não dorme…
É um sofrimento enorme
Sofrer constantemente...

O teu, bem sei, não sente
O meu então não dorme!

 

Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

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