Confessada

 
 

Quando na igreja escura à confissão te ajoelhas,
Sobem-te logo ao rosto umas rosas vermelhas!
Que mistério sombrio ou vergonhoso crime
Torna mais belo ainda o teu rosto sublime?

Eu conheço, Maria, o teu passado todo...
Nunca pecaste! O Mundo é realmente lodo,
Mas a ti pôs-te Deus duas asas de neve…
Deve um anjo corar, por ser mulher? Não deve!

5e tu, em vez dum padre e duma igreja escura,
Visses o próprio Deus, na luminosa altura,
Cercado d'anjos, tendo o globo aos pés, e então
Lhe fizesses, tremendo, a tua confissão,
Certamente que Deus aos anjos sorriria...

E, se corasse alguém, não eras tu, Maria!...

Porque pureza igual à da tua alma, creio
Que nem no céu... O mal nunca tocou teu seio,
Fazes inveja a tudo: ao Céu, à Lua, à Flôr!
E hás de ficar vermelha aos pés dum confessor?
Mas confessar o quê?...  Uma graça infinita?...
Olha, podes corar, que ficas mais bonita!


Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

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