Castelo d’Aguiar

 

Destacam-se no outeiro
As ruínas em montão dum castelo roqueiro.

Quando um frouxo de sol, a morrer no Ocidente,
Doira as cristas da serra e oscula friamente
A sombra negra dessas ruinas desoladas,
Eu relembro o Passado: — os duelos e as caçadas!...

Vejo-os correr ainda — esses nobres avoengos —
Montarias reaes com seus finos podengos,
A galope, galgando sebes e valados,
— 0 cabelo a açoutar os gorros emplumados! —
Sobre negros corcéis resfolegando pompas,
E irem, chicotes no ar, á vibração das trompas.
Leves no estribo, ao fim dum bosque secular,
Empoeirados na luz do sói crepuscular!...

E oiço ainda, a distância, os confusos ruidos:
0 hallalí! a resoar no bosque entre latidos!

Hoje reina um silêncio enorme nas campinas...
0 Sol que vae morrer beija sómente ruinas...
Zumbe através do bosque um enxame d'insectos;
Tremem, na calma do ar, rendas verdes de fetos;
E o fio d'água que murmura entre os choupais
Some-se entre o fraguedo e não scintila mais!...


Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

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