Carta

 

A tua carta bem-dita
Veio toda repassada
Duma doçura infinita!

Eu trago a vista cansada
De a reler de noite e dia...
Que do mais não leio nada!

Mesmo assim desejaria
Ficar cego de leituras
Tão banhadas de poesia.. .

Inda que fosse às escuras,
Eu leria os caracteres
De tão lindas Escrituras !

Tapa-me os olhos — se queres!
Adivinho, sendo tuas,
As cartas que tu quiseres…

Por ora só tenho duas...
Mas, como eu lhes quero tanto
Tu decerto continuas...

E lembrar-me, no entretanto,
Que se elas fossem maiores,
Era menor o meu pranto !

Escreve! que as minhas dores
São mais leves, quando leio
As cartas dos meus amores...

Abandona esse receio!
Escondes, cheia de medos,
As tristezas do teu seio!

Segura a pena nos dedos !
E, se eu te confio os meus,
Confia-me os teus segredos…

E, se queres que nem Deus
Os saiba (mas Ele sabe-os...
Escreve sobre os meus lábios
É com a tinta dos teus !

Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

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