A uma suicida

 

Anda o luar mais triste e a escuridão mais fria…
Os astros do Senhor — ó pomba fugidia! —
Ao verem-te passar,
Tremeram de pavor nas regiões serenas!
Mártir! havia sangue a macular-te as penas
Das asas virginais, brancas como o luar!

Os últimos clarões da lâmpada sagrada,
Quando a vida se torna um pezadêlo horrendo.
São para a nossa dôr a luz da madrugada...
Ai de ti, ai de ti! ó morta desgraçada
Que sofrias na treva e viste o sol, morrendo!

O coração gelou-t'o a ventania agreste!
E, como te fugisse uma esperança vã,
Foi a rosa dormir á sombra do cipreste
E um cirio alumiar a estrela da manhã!

Ah! quando se nos rouba a ultima esperança
E em gélida agonia o coração nos traz,
A sombra do cipreste aquece-nos, criança!
Ao menos lá na Morte o espirito descança...

A Morte é uma janela aberta sobre a Paz!

Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

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