A Primavera II

 

                        (fantasia guerreira)

Rompe a manhã d'Abril! Logo de madrugada,
Á bôca do horizonte estoira uma granada
De sangue, d'oiro em pó, d'esmeraldas — de sol!
Subitamente, ouviu-se a voz do rouxinol
Dando o alarme de guerra á passarada toda…

O marechal — um melro — olha assustado em roda,
Salta d'um pulo ardente acima d'um lilaz,
Bate a asa guerreira, e, ferozmente audaz,
Grita que surge alem, nas montanhas visinhas,
O exército inimigo: — onze mil andorinhas!...

Correu por todo o bosque um frémito... No azul,
O exército invasor das bárbaras do sul
Avançava, marcial, em filas negrejantes...
Um chuveiro de luz, de setas e diamantes,
Cáe na folhagem verde, e de repente, do ar!
Debalde o melro invoca o brio militar,
A independência, a glória, o bosque pátrio... — tudo!
O pobre melro afflicto, atordoado, mudo,
Vê debandar no espaço a passarada, a rir!...

Começavam no prado os roseiraes a abrir;
E do horisonte em fogo, o sol rasgando bréchas,
Despejava no espaço o seu carcaz de flechas,
Que atravessando o azul, vibrantes, luminosas,
Cravavam-se a tremer no coração das rosas!

Quando á batalha humana, escabelada, ardente,
Vem o tambor emfim rufar sinistramente,
Quando a Morte, baixando o braço ameaçador,
Larga a espada e estremece aos rufos do tambor,
E horrorisada então, numa corrida louca,
Vôa ao canhão a pôr-lhe a fria mão na bôca,
Entre os rôlos de fumo e nos espaços torvos
Vê-se pairar, grasnando, a legião dos corvos!...
Quando o sol trespassou as corolas vermelhas,
Viu-se baixar também uma legião d'abelhas
Tremeluzindo no ar as asitas doiradas
Para beber o sangue às rosas trespassadas!...

Ora o melro, que foi, todo a piar de medo,
Esconder-se — poltrão! à sombra dum silvedo,
Emquanto o sol feria as rosas virginais,
Viu as abelhas d'oiro e disse: — «Canibais!»
E ao rubro sol: «Tirano! As victimas que fazes,
Rosas, lirios, jasmins, madresilvas, lilazes,
Hão de clamar vingança à cólera de Deus!
Ah! tu serás chamado ao tribunal dos céus!
E quando a treva espessa, imensa, sepulcral,
Te arrebatar — ó sol hediondo! — ao tribunal
Da justiça de Deus, n'um turbilhão furioso,
Rolarás, sumir-te-ás no abismo tenebroso,
Porque naquele negro e trágico terror
Ha de erguer-se, a acusar-te, um cadaver de fiôr!

E pôz-se à escuta...
Já num convívio infantil
Os pássaros do bosque, apercebendo Abril,
Vinham saudando no ar as andorinhas... Era
Um tratado de Paz á luz da Primavera!
Uma ordenança voou... — que lépido pardal!
Poisou na sébe, riu e disse: «Marechal!
Rosas, lírios, jasmins, madresilvas, lilazes,
Fazem-lhe troça... Então! Venha fazer as pazes!...
Olhe, são como nós: — que perfeição de cólo!
E o marechal com medo! O marechal... é tolo!

«Ora ainda bem!... Julguei que rebentasse a guerra,
Mas foi melhor assim!... Te-Deum pois!»
E a Terra
Veste um manto de sol e touca-se de flores...
Vibra no templo azul a hora dos amores
E o sol caminha... A voz da cotovia canta!
Abandonemos a alma á melodia santa
Que vem do campo e faz os corações bondosos...
Abracemos sem medo esses troncos nodosos
Dos cedros, cuja rama as nuvens quasi roçam...
E na gaiata voz desses pardaes, que troçam,
Aprendamos a rir de todos os cobardes!...

Depois, quando soprar a viração das tardes,
Quando o sino tocando ao longe nos chamar
Á encantadora aldeia onde fumega um lar,
Poderemos sentir, n'uma alegria franca,
A face — côr de rosa, e a consciência — branca!
Vae scintilar em breve a abóbada estrelada!
Já nas águas do mar rebenta essa granada
De sangue, d'oiro em pó, d'esmeraldas — de sol!
E na macieira em flôr, a voz do rouxinol
Faz recolher ao bosque a passarada toda...
Dizei adeus ao melro! E, como agora é moda
Ter comendas, e a rosa é uma ílôr gentil,
Pendurae na lapela a Comenda d'Abril!

Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

Comments