A Fiandeira

 

Fazes bem mal, fiandeira,
Em fiar de noite e dia
Essa linhagem grosseira!
Mal empregada canseira
Que tem na vida quem fia!.

Eu fui também fiandeiro:
Fiava ternos cuidados
Em vez de linho trigueiro...
Fez-se-me a roca em bocados
E já não sou fiandeiro!

Passava os dias fiando!
E só tristezas e dores
Ia no fuso enrolando…
Ai, antes no linho brando
Do que fiar em amores!

Chega-se ao cabo do dia
E a roca, por espiar,
Sempre da mesma maneira!
E vem depois a canseira,
E acaba a gente a chorar
Sobre a mortalha que fia!.

Mal empregada canseira
Que tem na vida quem fia!.

 

Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

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