Á noite, pela praia uma criança chora

 

Á noite, pela praia uma criança chora…
Trás no corpito magro uma camisa em tiras!
Tem nos cabelos o oiro e tem na bôca a aurora
E aqueles olhos vão, pelo oceano fóra,
Como a luz do luar e o brilho das safiras!

— Que dolorido olhar e que tristeza a tua!
Não chores. A Inocência ignora o que é sofrer!
Andavas ainda agora alegre, pela rua,
E já triste, a chorar, n'uma noite de lua!...
Tu não podes chorar uns olhos de Mulher!

A tua alma infantil nem conhece o que é triste…
Tu choras porque vês os astros a chorar!
Fita-me bem, criança! E dize se já viste,
A tua frente, a Dôr com uma lança em riste…
Tu não pódes chorar as ausências do Lar!

Tu devias sorrir às ondas de esmeralda…
Tu devias cantar sob a lua marmórea!
É uma divida o pranto — e só a Morte a salda...
Tu não sabes que o pranto é um alivio que escalda,
Tu não pódes chorar os sorrisos da Gloria!

Como a Inocência é bela e o Oceano profundo!
É um oceano a Vida e tu nem mesmo a sondas…
Ah! coração feliz que não conhece o Mundo!
O teu olhar reluz por esse mar sem fundo,
E o teu olhar, criança, o que busca nas ondas?...

Tu viste certamente uma pérola enorme…
— Uma estrela talvez que risca o azul e cae! —
Como és ambiciosa e como o Oceano dorme!...

Mas a criança soluça: — «Eu procuro o meu pae!...»


Autor: João Saraiva (1866-1948)
Editado por: nicoladavid

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