"A Vida"


Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
A luz que nesta vida me guiava,
Olhos fitos na qual até contava

Ir os degraus do túmulo descendo.

Em se ela anuveando, em a não vendo,
Já se me a luz de tudo anuveava;
Despontava ela apenas, despontava

Logo em minha alma a luz que ia perdendo.

Alma gémea da minha, e ingénua e pura
Como os anjos do. céu (se o não sonharam ... )
Quis mostrar-me que o bem bem pouco dura!

Não sei se me voou, se ma levaram;

Nem saiba eu nunca a minha desventura
Contar aos que inda em vida não choraram.

Ah! quando no seu colo reclinado,

Colo mais puro e cândido que arminho,
Como abelha na flor do rosmaninho
Osculava seu lábio perfumado;


Quando à luz dos seus olhos (que era vê-los,
E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!)

Lia na sua boca a Bíblia santa

Escrita em letra cor dos seus cabelos;


Quando a sua mãozinha pondo um dedo
Em seus lábios de rosa pouco aberta,
Como tímida pomba sempre alerta,

Me impunha ora silêncio, ora segredo;


Quando, como a alvéola, delicada,

E linda como a flor que haja mais linda,
Passava como o cisne, ou como ainda
Antes do sol raiar nuvem doirada;


Quando em bálsamo de alma piedosa
Ungia as mãos da súplice indigência,
Como a nuvem nas mãos da Providência
U ma lágrima estila em flor sequiosa;


Quando a cruz do colar do seu pescoço
Estendendo-me os braços, como estende

O símbolo de amor que as almas prende,
Me dizia... o que às mais dizer não ouço;


Quando, se negra nuvem me espalhava
Por sobre o coração algum desgosto,
Conchegando-me ao seu cândido rosto
No perfume dum riso a dissipava;


Quando o oiro da trança aos ventos dando
E a neve de seu colo e seu vestido,

Pomba que do seu par se ia perdido,

Já de longe lhe ouvia o peito arfando;


Quando o anel da boca luzidia,
Vermelha como a rosa cheia de água,

Em beijos à saudade abrindo a mágoa,
Mil rosas pela face me esparzia;


Tinha o céu da minha alma as sete cores,
Valia-me este mundo um paraíso,
Destilava-me a alma um doce riso,
Debaixo de meus pés brotavam flores!


Deus era inda meu pai; e enquanto pude
Li o seu nome em tudo quanto existe,

No campo em flor, na praia árida e triste,
No céu, no mar, na terra e... na virtude!

 

Virtude! Que é mais que uI? nome
Essa voz que em ar se esvai,.

Se um riso que ao lábio assome
Numa lágrima nos cai!

 

Que és, virtude, se de luto
Nos vestes o coração?

És a blasfémia de Bruto:

Não és mais que um nome vão!
 

Abre a flor à luz, que a enleva,
Seu cálix cheio de amor,

E o sol nasce, ,passa e leva
Consigo perfume e flor!

Que é desses cabelos de oiro
Do mais subido quilate,
Desses lábios escarlate,

Meu tesoiro!

 Que é desse hálito que ainda
O  coração me perfuma!

Que é do teu colo de espuma,
Pomba linda!

 

Oue é duma flor da grinalda
Dos-teus doirados cabelos!
Desses olhos, quero vê-los,

Esmeralda!

 

Que é dessa franja comprida
Daquele xaile mais leve

Do que a nuvem cor de neve,
Margarida!

 

Que é dessa alma que me deste,
Dum sorriso, um só que fosse,
Da tua boca tão doce,

Flor celeste!

 

Tua cabeça, que é dela,

A tua cabeça de oiro,
Minha pomba! meu tesoiro!

Minha estrela!

 

De dia a estrela de alva empalidece;
E a luz do dia eterno te há ferido!
Em teu lânguido olhar adormecido
Nunca me um dia em vida amanhecesse!

Foste a. concha da praia! A flor parece
MaIS dIt.osa que tu! Quem te há partido,
Meu cálix de cristal onde hei bebido
Os néctares do céu ... se um céu houvesse!

 

Fonte pura das lágrima que choro,
Quem tão menina e moça desmanchado
Te há pelas nuvens os cabelos de oiro!


Some-te, vela de baixel quebrado!
Some-te, voa, apaga-te, meteoro!
E só mais neste mundo um desgraçado! 
 
E as desgraças podia prevê-las
Quem a terra sustenta no ar,
Quem sustenta no ar as estrelas,
Quem levanta às estrelas o mar.

 

Deus podia prever a desgraça,   
Deus podia prever e não quis!

E não quis, não ... se a nuvem que passa
Também pode chamar-se infeliz!


A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E corno o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,

A vida é estrela cadente,

Voa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou.

A vida - pena caída

Da asa de ave ferida -

De vale em vale impelida

A vida o vento a levou!

 

Como em sonhos o anjo que me afaga
Leva na trança os lírios que lhe pus,
E a luz quando se apaga
Leva aos olhos a luz!

Levou sim, como a folha que desprende
De uma flor delicada o vento sul, .

E a estrela que se estende
Nessa abóbada azul;

Como os ávidos olhos dum amante
Levam consigo a luz dum terno olhar,
E o vento do levante
Leva a onda do mar!

Como o tenro filhinho quando expira
Leva o beijo dos lábios maternais,

E à alma que suspira
O vento leva os ais!

Ou como leva ao colo a mãe seu filho,
E as asas leva a pomba que voou,

E o sol leva o seu brilho ...
O vento ma levou!

 

E Deus, tu és piedoso,
Senhor! és Deus e pai!
E ao filho desditoso
Não ouves pois um ai!

 

Estrelas deste aos ares,
Dás pérolas aos mares,
Ao campo dás a flor,
Frescura dás às fontes,
O lírio dás aos montes,
E roubas-ma, Senhor!

Ah! quando numa vista o mundo abranjo,
Estendo os braços e, ,palpando o mundo,
O céu, a terra e o mar vejo a meus pés,
Buscando em vão a imagem do meu anjo,
Soletro à frouxa luz dum moribundo

Em tudo só : Talvez!. ..

Talvez! - é hoje a Bíblia, o livro aberto

Que eu só ponho ante mim nas rochas quando
Vou pelo mundo ver se a posso ver;

E onde, - como a palmeira do deserto,

Apenas vejo aos pés inquieta ondeando

A sombra do meu ser!

Meu ser... voou na asa da águia negra
'Que, levando-a, só não levou consigo
Desta alma aquele amor!

E quando a luz do solo mundo alegra,
Crisálida nocturna a sós comigo

Abraço a minha dor!

Dor inútil! Se a flor que ao céu envia
Seus bálsamos se esfolha, e tu no espaço
Achas depois seus átomos subtis,

lnda hás-de ouvir a voz que ouviste um dia ...
Como a sua Leonor inda ouve o Tasso ...
Dante, a sua Beatriz!
 
- Nunca! responde a folha que o outono,
Da haste que a sustinha a mão abrindo,
Ao vento confiou;

- Nunca! responde a campa onde do sono
E quem talvez sonhava um sonho lindo,
Um dia despertou!

- Nunca! responde o ai que o lábio vibra;

- Nunca! responde a rosa que na face
Um dia emurcheceu:

E a onda que um momento se equilibra
Enquanto diz às mais: Deixai que eu passe!

E passou e... morreu!

 

 

 

Autor: João de Deus (1830-1896)
Editado por: nicoladavid

Não esqueça ligar o som

Comments