"Os amantes com casa"


Andavam pela casa amando-se

no chão e contra as paredes.

Respiravam exaustos como se tivessem

nascido da terra

de dentro das sementeiras.

Beijavam-se magoados

até se magoarem mais.

Um no outro eram prisioneiros um do outro

e livres libertavam-se

para a vida e para o amor.

Vivendo a própria morte

voltavam a andar pela casa amando-se

no chão e contra as paredes.

Então era música, como se

cada corpo atravessasse o outro corpo

e recebesse dele nova presença, agora

serena e mais pobre mas avidamente rica

por essa pobreza.

A nudez corria-lhes pelas mãos

e chegava aonde tudo é branco e firme.

Aquele fogo de carne

era a carne do amor,

era o fogo do amor,

o fogo de arder amando-se e por toda a casa,

contra as paredes,

no chão.

Se mais não pressentissem bastaria

aquela linguagem de falar tocando-se

como dormem as aves.

E os olhos gastos

por amor de olhar,

por olhar o amor.

E no chão

contra as paredes se amaram e

pela casa andavam como

se dentro das sementeiras respirassem.

Prisioneiros libertados, um

no outro eram livres

e para a vida e para o amor se beijaram

magoando-se mais, até

ficarem magoados.

E uma presença rica,

agora nova e mais serena,

avidamente recebeu a música que atravessou de

um corpo a outro corpo

chegando às mãos

onde toda a nudez é branca e firme.

Com uma carne de fogo,

incarnando o amor,

incarnando o fogo,

contra o chão das paredes se amaram

pressentindo que

andando pela casa bastaria tocarem-se

para ficarem dormindo

como acordam as aves.

 

 Autor: Joaquim Pessoa
Editado por: nicoladavid



Comments