Espanha



Foi há nove anos já, nesse solar amigo,

Entre as murtas anãs duma velha alameda,

Que a Marquesa de Uñon Garcia de la Rueda

Se esqueceu do Marquês, a conversar comigo.

 

Aconchegou-se a mim, no misterioso abrigo;

Recitou, a tremer, uns versos de Espronceda...

E a minha mão sentiu uma meia de seda,

E o meu lábio pousou sobre um colar antigo.

 

O calor duma perna e a pedra dum colar...

Num súbito clarão, passaram-me no olhar

Frades de Zurbaran, "majas" nuas de Goya.

 

E hoje ainda, ao errar de noite na alameda,

Sinto a crepitação dessa meia de seda

E o gelado fulgor dessa pequena jóia...


Autor: Júlio Dantas (1876-1962)
Editado por: nicoladavid

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