"Debaixo duma Árvore"



Enzinhas que entouçais o tronco tosco
Soltai folhas, fazei-me a cama de ouro,
Que um desgraçado vem chorar convosco.

Enquanto eu aqui seja, vos agouro,
Tereis água de lágrimas bastante,
Porque sobram motivos do meu choro.

O pensamento dói-me a cada instante:

Nem confortos me abrandam, que ao enfermo
Todo o conforto lhe é mortificante.

Trago comigo um mal que não vê termo;
Convosco desabafo o meu desgosto,

Porque o mundo não pode compreender-mo.

Tudo o que tenho na lembrança posto,
Mal me alembro, desfaz-se, freixo rude,
E em lágrimas me tomba pelo rosto.

Mas como foi que eu escolher vos pude
Para contar-vos íntimas moléstias,

A vós, cheias de seiva e de saúde?

As vossas grenhas verdes, o sol veste-as;
E na sombra do chão áspero e duro,
Nomes escreve com douradas réstias.

o musgo sobe ao tronco bem seguro;
Trucilam tordos, palram estorninhos
Em cada galho musculoso e escuro.

Antes eu conte às pedras dos caminhos
Meu desgosto: são pálidas como eu;

As lástimas espantam vossos ninhos.

Como do ninho o tordo não vê céu,
De ouvir contar angústias tão escuras,
Não vá ele cuidar que anoiteceu ...

O melhor confidente de amarguras
E o que nada diz e tudo escuta,

Vidrado o olhar por nossas desventuras:

E vós quase assim sois, enzinha bruta!
Meu coração, o mundo contrafez-mo;
É ele que a si fala e a si se escuta:

Quando vos falo a vós, falo a mim mesmo.


Autor: Júlio Dantas (1876-1962)
Editado por: nicoladavid

 

Comments