Sonhando que via a Márcia


 

Pintais, sono gentil, com belo ornato

Meu claro sol na vossa sombra escura,

Que posto que da morte sois retrato,

Retrato sabeis ser da fermosura.

 

Eu, vendo o grato rosto e peito ingrato,

Quando fermosa a sigo a temo dura;

Porém firme no amor, fácil no trato,

Me coroa a esperança, a fé me jura.

 

Cante pois por tal glória, por tal sorte,

Cante vosso louvor, minha Talia

No Ocaso, no Oriente, Sul e Borte;

 

Chame-vos clara luz, não sombra fria,

Causa da vida, não irmão da morte,

Filho da noite não, mas pai do dia.

 

Autor: Jerónimo Baía (1620/30-1688)
Editado por: nicoladavid

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